Como deixar de estar num país “menos inteligente”

Há diversas formas de se “medir” o sucesso educacional de um país. Por exemplo: no estudo IQ and the Wealth of Nations (2002), Richard Lynn e Tatu Vanhanen tentaram relacionar o QI médio dos países com fatores econômicos e sociais. Ainda que de forma um tanto controversa, nesta pesquisa eles conseguiram atribuir um QI médio a mais de 100 países. Segundo o levantamento, o Brasil ocupa a 62ª posição entre 81 países, com um QI médio estimado em 87, abaixo da média global, em torno de 90.

Outro indicador amplamente reconhecido é o PISA, avaliação promovida pela OCDE. Na edição mais recente, em 2022, o Brasil ficou entre 57º e 65º lugar dentre cerca de 81 países. O desempenho foi acima da média em leitura, mas abaixo da média em ciências e matemática.

Importante destacar: esse desempenho não reflete uma limitação intelectual inata dos brasileiros, mas sim de condições estruturais que dificultam o aprendizado e que podem ser corrigidos – se entendermos adequadamente o que são estas estruturas. 

Mudar o “estar” para transformar o país

Diante desse cenário, algumas pessoas cogitam migrar para outros países em busca de melhores oportunidades — o que nem sempre é viável. Mas existe outra possibilidade, inspirada pela própria riqueza da língua portuguesa: “estar abaixo da média” não é o mesmo que “ser abaixo da média”. E, se o problema está no “estar”, podemos mudá-lo.

Uma alternativa poderosa é fortalecer a nossa Inteligência Coletiva (IC). Há provas claras de que ela funciona: exemplos como as escolas de samba e o Boi de Parintins mostram como milhares de pessoas, colaborando com o melhor de cada um, com criatividade e organização, produzem espetáculos inigualáveis no mundo todo.


Educação pública como base da Inteligência Coletiva

A educação pública básica é a ferramenta mais potente para disseminar a Inteligência Coletiva. Ela alcança milhões de brasileiros, com ampla capilaridade. Somente nos Ensinos Fundamental e Médio, temos cerca de 35 milhões de estudantes, mais de 2 milhões de professores e incontáveis familiares envolvidos.

Se conseguirmos mobilizar esse ecossistema em torno da Inteligência Coletiva, o impacto pode ser transformador para o país.

Do formato “Fogos de Artifício” ao formato “Rede de Pesca”

O formato educacional dominante hoje — seja centralizado ou descentralizado (como mostra a figura abaixo) — pode ser comparado a “fogos de artifício”: ele depende intensamente do brilho individual de cada gestor e professor. Porém, como demonstram estudos de redes de comunicação (como os que deram origem à internet), esse formato é frágil.

Uma alternativa mais robusta é o formato “Rede de Pesca”, fundamentado na Inteligência Coletiva. Nesse arranjo, o coletivo importa mais do que o desempenho isolado de cada nó da rede. A força está na interconexão, não na centralidade. 

O formato faz a diferença

Atualmente, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio operam, em sua maioria, no formato Fogos de Artifício. Algumas escolas particulares têm sucesso nesse arranjo porque atendem a estudantes de perfil socioeconômico mais elevado e podem selecionar melhores professores e gestores.

No entanto, na rede pública, com cerca de 1 milhão de professores em atuação, não é possível contar com esse nível de seleção individual. Por isso, é essencial migrar para um formato de Educação em Rede de Pesca com Inteligência Coletiva, que permite reconhecer e potencializar as contribuições de cada educador — independentemente de sua origem ou formação.

Um exemplo simples ajuda a ilustrar: uma folha de papel em pé não sustenta um celular. Mas a mesma folha, enrolada em forma de tubo, sustenta com facilidade. O que mudou? O formato. A estrutura em si transforma a funcionalidade e a resistência.

Transformar com o que já temos

A boa notícia é que podemos construir uma educação pública de elevada qualidade a partir dos profissionais que já temos. A convivência diária em um formato de alta Inteligência Coletiva acelera o crescimento pessoal e profissional dos educadores, elevando seus resultados e sua autoestima. Vamos transformar a educação pública brasileira!